81,6% das famílias brasileiras estão endividadas. O que isso tem a ver com a sua escola?
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Em maio de 2026, a Confederação Nacional do Comércio divulgou um número que deveria parar qualquer gestor escolar no meio de um dia corrido.
81,6% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida.
É o maior índice desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, em 2010. Cinco meses seguidos de crescimento. Um recorde que, desta vez, não poupa nem as famílias de maior renda: entre aquelas com renda acima de dez salários mínimos, o endividamento saltou de 65,5% para 69,3% em apenas um ano.
O cartão de crédito lidera: citado por 84,6% das famílias com dívidas. Com juros de 428,3% ao ano no crédito rotativo. Lendo esses números, a primeira reação é pensar: "isso é um problema macroeconômico." E é. Mas há uma segunda leitura que interessa diretamente a quem dirige uma escola.
A inadimplência começa antes de chegar à secretaria
Quando uma família chega atrasada na mensalidade, ela já passou por um processo longo de pressão financeira. A conta de luz. O cartão. O condomínio. O supermercado.
A escola, quase sempre, é uma das últimas a ficar sem pagamento, porque representa um valor simbólico e afetivo alto. Mas quando a ruptura acontece, acontece com urgência.
Esse ciclo não é novo. O que é novo é a escala.
Com mais de 81 milhões de adultos negativados no Brasil, a probabilidade de que uma parte das famílias da sua escola esteja nesse ciclo é real. E crescente.
O problema não é a crise do mês. O problema é que ninguém ensinou essas famílias, quando crianças, a lidar com dinheiro de forma diferente.
A escola herdou um problema que não criou. Mas pode ajudar a resolver.
Não é justo colocar na escola a responsabilidade pelo endividamento estrutural do país.
Mas é honesto reconhecer que a escola é um dos poucos ambientes onde crianças e adolescentes passam tempo suficiente para desenvolver hábitos. E hábito financeiro é exatamente isso: algo que se forma com repetição, ao longo dos anos, com contexto e prática.
A BNCC reconheceu isso em 2020, incluindo educação financeira como conteúdo transversal obrigatório. O Banco Central foi além: em 2026, ampliou o Programa Aprender Valor para o Ensino Médio de escolas públicas e particulares em todo o país.
O sinal regulatório e social aponta na mesma direção.
A pergunta que fica para o gestor é: a minha escola está respondendo a esse sinal de forma estruturada, ou ainda tratando o tema como uma atividade pontual?
O que funciona de verdade dentro da rotina escolar
Falar em educação financeira na escola é fácil. Fazer funcionar é outra história.
A maior barreira não é a vontade da equipe. É a falta de material, de método e de suporte continuado. Professores relatam insegurança para abordar o tema. Coordenadores precisam de um projeto que caiba no currículo sem gerar retrabalho. E a família, quando não está envolvida, costuma desfazer em casa o que foi construído em sala.
O que muda quando o projeto é bem estruturado é visível. Alunos passando a distinguir necessidade de desejo. Crianças levando conversas sobre dinheiro para casa. Famílias percebendo que a escola está preparando o filho para a vida, não só para a prova.
Esse tipo de resultado não aparece numa avaliação de proficiência.
Mas aparece na conversa entre pais. No boca a boca que traz novas matrículas.
E, com o tempo, em famílias que chegam ao final do ano letivo com menos pressão financeira acumulada.
O momento de decidir é agora
O segundo semestre começa em agosto. As decisões pedagógicas e orçamentárias para esse período estão sendo tomadas agora. Escolas que querem implantar educação financeira de forma estruturada em 2026 têm uma janela pequena: julho. É o mês de capacitação, de adaptação curricular, de conversa com professores.
Quem deixar para agosto, começa improvisando.
O dado de 81,6% de famílias endividadas não vai melhorar de forma rápida. Mas uma criança que aprende a planejar, poupar e entender o valor do dinheiro antes dos 10 anos tem uma chance muito maior de não entrar nessa estatística quando adulta.
Esse é o papel da escola. E essa é a urgência.
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