De São Paulo a Xangai: O que a imersão de alunos do Bandeirantes na China revela sobre o futuro da educação
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Em uma jornada de 20 dias pelo ecossistema tecnológico e cultural chinês, a verdadeira descoberta esteve no olhar da nova geração diante do mérito, da inovação e da escala global.

Nas ruas movimentadas de Pequim, um veículo autônomo realiza conversões precisas, respeita as faixas de pedestres e reage ao tráfego sem nenhuma intervenção humana. Dentro dele, o contraste entre gerações se tornou evidente em questão de minutos.
Enquanto os adultos observavam admirados o volante girando sozinho, os estudantes do Colégio Bandeirantes encaravam a cena com absoluta naturalidade. Para a Geração Z, um carro sem motorista não é um milagre tecnológico: é apenas mais uma terça-feira.
O episódio vivenciado por Ricardo Aguirre, CMO do Colégio Bandeirantes, ao lado de dez alunos do Ensino Médio durante uma imersão de vinte dias por Pequim, Xangai e Frankfurt, sintetiza o espírito de uma viagem cujas maiores lições ultrapassaram as fronteiras da tecnologia.
O objetivo inicial de apresentar o futuro global aos estudantes transformou-se em um exercício pedagógico reverso: observar como esses jovens percebem, interpretam e se posicionam diante do mundo.
O fascínio pelo analógico no coração da tecnologia
A jornada reservou surpresas logo nas primeiras paradas corporativas. Ao visitarem a sede da BOKE Technology, em Xangai — gigante dos games cujos aplicativos somam mais de 40 milhões de downloads no Brasil —, a expectativa era de que os estudantes fossem fascinados pelos algoritmos, pela programação ou pela inteligência de dados por trás dos jogos digitais.
Surpreendentemente, o centro das atenções do grupo foi o Skill Master, um jogo de tabuleiro físico, feito de papel, sem qualquer interface digital. Diante de uma das maiores empresas globais de tecnologia, jovens criados conectados a telas demonstraram um profundo interesse pela negociação olho no olho, pela estratégia tangível e pelo convívio presencial. O episódio deixou uma reflexão crucial para os educadores: em um mundo hiperconectado, do que a juventude atual tem, de fato, fome? A resposta pode indicar que a tecnologia é a ferramenta, mas a interação humana continua sendo o destino.
A geopolítica e a economia sob o olhar de quem vive o mercado
Um dos momentos mais densos do itinerário ocorreu em Xangai, durante uma mesa-redonda entre executivos brasileiros e chineses conduzida por Alexandre Liu — ex-aluno do Colégio Bandeirantes, graduado pela Poli-USP, FGV e FIA, e atual General Manager da Citrosuco na China.
A presença de um alumnus liderando operações globais do outro lado do mundo expandiu o horizonte geográfico dos estudantes. Para alunos acostumados a encarar o eixo América do Norte-Europa como único destino profissional possível, ouvir sobre a abertura de mercados na Ásia reposicionou a escala do futuro.
Na dimensão econômica e cultural, as perguntas dos estudantes revelaram um interesse amadurecido por temas como tributação, custos operacionais e a dinâmica de reinvestimento local na China. Mais do que isso, impressionou a descoberta do conceito chinês de infraestrutura de reputação: no ambiente corporativo do país, a credibilidade de um executivo está diretamente ligada ao seu compromisso social e ao cuidado com sua família e comunidade de origem.
O Zhongkao e a lição sobre mérito, privilégio e esforço
Se a tecnologia impressionou, foi o sistema educacional chinês que provocou a discussão mais profunda da viagem. Durante as conversas, o grupo conheceu a realidade do Zhongkao, o exame nacional prestado aos 15 anos de idade que define a transição do ensino fundamental para o médio.
Diferente do que ocorre no Brasil, onde o foco recai sobre o vestibular no final do Ensino Médio (equivalente ao Gaokao chinês), o grande gargalo da juventude chinesa acontece três anos antes. Em 2023, mais de 15 milhões de adolescentes prestaram o Zhongkao, sabendo que cerca de 50% deles seriam direcionados ao ensino técnico, sem acesso direto à universidade tradicional.
A constatação dessa cobrança precoce e em escala massiva impactou os estudantes do Bandeirantes. Mais do que entender a competição global, os alunos absorveram a dimensão do próprio privilégio e compreenderam que a busca pela excelência exige dedicação e preparo contínuos.
A formação docente como pilar do desenvolvimento
A busca pelas raízes desse modelo levou a comitiva à East China Normal University, em Xangai. O termo "Normal" (derivado do francês école normale) remete à tradição histórica de instituições dedicadas exclusivamente ao desenvolvimento de métodos de ensino e à formação de professores.
Essa visão de longo prazo refletiu-se nos resultados do PISA de 2018, no qual regiões como Pequim e Xangai alcançaram o topo mundial em leitura, matemática e ciências. Guardadas as devidas proporções socioeconômicas e regionais, a lição central permanece clara: onde há investimento sistemático na capacitação docente, o aprendizado se transforma.
Essa constatação valida a filosofia contínua do Colégio Bandeirantes, que investe de forma permanente no incentivo ao mestrado, doutorado e especialização de seu corpo docente, tratando a formação dos professores não como um benefício administrativo, mas como o coração da excelência acadêmica.
Tradicionalmente inovadores: A visão de longo prazo
Durante uma caminhada pela Grande Muralha da China, no trecho de Mutianyu, a experiência da viagem foi sintetizada em uma reflexão sobre a temporalidade. Assim como os construtores da muralha ergueram pedras para gerações futuras, a sociedade chinesa atual constrói seu desenvolvimento com base em dados, infraestrutura e educação de longo prazo.
Em um contexto no qual cerca de 79% das exportações brasileiras de soja têm a China como destino (dados Anec 2025), compreender a mentalidade, a cultura e a economia orientais deixa de ser um diferencial e torna-se alfabetização geopolítica básica para a formação dos líderes do amanhã.
A imersão comandada por Ricardo Aguirre trouxe na bagagem dez jovens transformados, com um repertório ampliado sobre o tamanho e as exigências do mundo contemporâneo, e reforçou o compromisso do Colégio Bandeirantes em formar cidadãos conscientes, globais e preparados para os desafios do futuro.
Sobre o autor: Ricardo Aguirre é CMO do Colégio Bandeirantes. Em julho de 2026, acompanhou dez alunos da instituição em uma jornada de imersão de vinte dias por Xangai, Pequim e Frankfurt.
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